5 de março de 2026 a 12 de abril de 2026

o que pensou primeiro foi a mão

Rua Padre Manuel de Chaves, 44 (estacionamento R. Amauri, 59)

Pascal Reusch: O que pensou primeiro foi a mão
por Paulo Gallina

O que pensou primeiro foi a mão apresenta ao público paulistano a obra e celebra a produção recente do artista franco-suíço Pascal Reusch, radicado no Brasil há quase três décadas. Trata-se de um artista que recusa a tarefa de retratar o mundo tal como o vemos. Em vez disso, sua produção busca ultrapassar um realismo fundado na representação.
Suas peças — construídas a partir de matérias frias, como a azulejaria, e matérias quentes, como a madeira e o grafite — instauram objetos que pertencem ao mundo sem necessariamente representá-lo.
Nas esculturas de parede e de chão apresentadas na Galeria Lica Pedrosa, Pascal mobiliza duas ideias centrais.
A primeira emerge na tensão entre asseamento e clareza. Essa confusão torna-se visível na materialidade das peças exibidas na primeira sala. Elementos brilhantes e reflexivos, assentados sobre placas de compensado, encenam essa ambiguidade. A azulejaria queimada produz um jogo mental e geométrico que sugere uma espécie de clareza formal — como se a limpeza da superfície garantisse também a limpidez da ideia. A visibilidade, nesse contexto, promete clareza, mas entrega opacidade.
A essa superfície quase impessoal e industrial, o escultor associa elementos orgânicos — madeira, galhos, ranhuras, rachaduras e agulhas de acupuntura — que introduzem aquilo que poderíamos chamar de “o sujo”: o irregular da matéria viva. Esses elementos ativam uma experiência perceptiva que ultrapassa o plano mental inicialmente sugerido pela geometria das peças.
Por meio de intervenções ora discretas, ora mais exuberantes, o artista revela a segunda ideia que atravessa sua pesquisa plástica: se tudo o que experimentamos é registrado na memória, é no encontro direto com o real — com as qualidades físicas da matéria — que a própria mente se funda.
Essa proposição desloca suas esculturas de um jogo puramente conceitual para o campo da presença. A obra passa a operar como uma interferência na percepção, convocando o observador a reconhecer sua própria presença visceral no mundo. Talvez seja possível perceber aqui um eco da tradição surrealista francesa, com a qual Pascal manteve interlocução em sua formação. Dentro desse horizonte, o artista aposta menos na explicação e mais na suspensão do sentido imediato, permitindo que o visitante atravesse os limites do que supomos reconhecer como real.
Em sua pesquisa, o escultor mostra repetidamente como a mão responde ao contexto tanto quanto ao pensamento. A mente procura compreender, mas é o gesto — por vezes quase apagado por materiais de aparência impessoal — que estabelece uma relação concreta com o espectador.
A matéria fria pode funcionar como base, mas também revela rachaduras ou sustenta pequenas trepadeiras. Esses ferimentos são frequentemente tratados com agulhas de acupuntura. Já a matéria quente — e vale lembrar que o azulejo também nasce do calor do forno — aparece associada à madeira, que sustenta instrumentos de adivinhação feitos com lâminas.
Aquilo que está ferido é tratado; aquilo que guarda calor anuncia o futuro por meio das navalhas. Nesse jogo entre cuidado e risco, Pascal Reusch sugere que a arte pode ser simultaneamente gesto de cura e experiência de perigo. Mais do que oferecer respostas, as esculturas desta produção recente revelam a atenção do artista ao lidar com materiais e temas que carregam sempre alguma ameaça — e, talvez por isso mesmo, uma potência de transformação.
No trabalho de Pascal Reusch, a mão parece preceder a formulação da ideia. O gesto não executa um pensamento prévio: ele o descobre.

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