10 de junho de 2026 a 1 de julho de 2026

Utopias para céu e terra

Galeria Lica Pedrosa: Rua Padre Manuel Chaves, 44. Jardim Europa, SP | Taller Zaragoza: Rua Amauri, 62 - Jardim Europa, SP

Utopias para céu e terra
Ary Perez, Marcos Cardoso e Michele Milan

Embriões, casulos, abrigos, templos, habitáculos. Em comum, todos parecem nascer do desejo de conter um pequeno cosmos. Procedimento comum também a um tipo de processo artístico baseado na concepção de novos mundos, pequenas utopias individuais que, apesar de particulares, se dispõem ao compartilhamento. Ary Perez, Marcos Cardoso e Michele Milan são três artistas que sem dúvidas trazem consigo um potencial de criação de mundos. Apesar de trabalharem com suportes e perspectivas distintas, pode-se situá-los dentro de um mesmo movimento circular de processos paralelos através dos quais imaginam, sistematizam e constroem universos. Parte de uma mesma espiral ascendente que, em diferentes momentos, parece conectar céu e terra. Michele Milan, natural de São Paulo, iniciou sua trajetória no material mais denso e tradicional da história da arte: a pedra. Encontrando depois a pintura e, em seguida, a colagem, seus trabalhos retornam à tridimensionalidade com o salto do papel ao espaço. Esculturas de grandes dimensões em papel e tecido passam a se retorcer sobre si mesmas em movimentos circulares que, pouco a pouco, parecem exigir novas materialidades. Em sua produção mais recente, amplamente presente na exposição, fios de cobre se enroscam criando embriões de pequenos universos. Por vezes próximos a casulos, favas ou emaranhados neuronais, seus trabalhos conformam estruturas de abrigo que parecem gestar novas formas de vida. Alguns deixam entrever aquilo que nasce em seu interior, como contenedores de pequenos cosmos; outros se fecham sobre si e protegem o que ainda está por vir. Etéreos e muitas vezes suspensos, parecem plasmar-se no espaço. Nesse entre céu e terra cresceu Marcos Cardoso. Criado no mar de Paraty e trabalhando como pescador até os 23 anos, encontrou na arte uma nova forma de existência. Após sua formação em artes visuais e desenho técnico, passou a se interessar pelas geometrias que organizam o mundo, não apenas aquelas racionais e sistematizadas, mas também as intuitivas, percebidas no corpo e presentes na natureza. Ao longo de uma trajetória marcada pelo uso dos mais diversos materiais, iniciou, há cerca de dez anos, uma série com bambolês. Após observar uma criança brincando com um espirógrafo diante de uma loja desses objetos, uniu as duas imagens em trabalhos que desenham uma geometria mais que corpórea. Entre a circularidade do bambolê e o movimento espiralar do espirógrafo, surge uma matemática intuitiva que parece organizar diferentes planos da existência, abraçando os corpos, que compartilham sua mesma natureza. Por fim, Ary Perez atua sobre a dimensão construtiva do mundo, herança direta de sua formação como engenheiro e arquiteto. Também atravessada por uma geometria, agora mais rigorosa, sua produção toma como referência desde a torre espiralada de Vladimir Tatlin até os zigurates da antiga Mesopotâmia — estruturas cujo nome significa “base do céu e da terra”. Surgem daí grandes totens que ocupam o espaço expositivo numa verticalidade que conecta duas dimensões, entre abrigo e templo. Algumas retomam as formas piramidais, enquanto outras imaginam utopias entrando lentamente em colapso, como os bambus dominados por cupinzeiros. Além delas, aquarelas e peças cerâmicas compostas por módulos intercambiáveis propõem jogos contínuos de rearranjo, em que cada combinação permanece aberta à invenção de novas formas. Além de seus trabalhos individuais, uma instalação foi concebida em conjunto pelos três artistas para este espaço expositivo. Nela, uma grande estrutura espiralada suspensa une teto e piso, céu e terra, em um contínuo movimento circular. Obras de Michele Milan, Marcos Cardoso e Ary Perez se entrelaçam em um vórtice que lentamente se afunila em direção a uma pequena escultura vertical posicionada em seu centro, fazendo convergir diferentes mundos e temporalidades para um mesmo eixo gravitacional. Ambígua entre abrigo e tornado, a instalação transforma a ideia de utopia em estrutura instável, cuja entropia tende ao colapso distópico. É dessa elaboração simultaneamente individual e coletiva que nasce Utopias para céu e terra. A exposição traça um paralelo entre os trabalhos dos três artistas, aproximando diferentes modos de conceber, organizar e construir pequenas utopias. Cada um, interessado à sua maneira nesse processo, oferece possibilidades de imaginação e permanência diante de um mundo que insiste em se autodestruir.

Catalina Bergues

curadora